CONSCIÊNCIA POLÍTICA

 

 

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviado por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem” (I Pedro 2.13,14 ).

Esse texto é bastante protetor para nós: ele nos fala de consciência política. É importante observarmos esse ensino bíblico por dois motivos, pelo menos. Em primeiro lugar, porque percebemos que a Bíblia também fala sobre a política; ela não a coloca como algo demoníaco ou com o que os cristãos não devem de modo nenhum se envolver. É necessário desmistificar o pensamento que muitos cristãos têm sobre política.

 Muitos cristãos imaginam que não podem e nem devem buscar uma consciência política; que todo e qualquer pensamento político é ruim e significa ausência de espiritualidade;. Devemos relembrar sobre a nossa posição aqui na terra: ainda não fomos glorificados, não fomos morar no céu; ainda estamos na terra e precisamos ter a consciência das coisas que acontecem aqui. Não devemos pensar que o posicionamento do cidadão diante da política deve ser desinteressado ou displicente. O cristão deve estar atento a todas as questões políticas do seu país e mais do que isso: a recomendação de Pedro para os cristãos é: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor”. Pedro não está dizendo que os cristãos deveriam se colocar acima deles como se fossem melhores ou como se fossem informados mais do que eles, nem se rebelarem contra as autoridades quando sentirem que eles estão tomando atitudes erradas ou difamar e criticar as instituições humanas por causa dos seus erros. Há muitos que diante das situações da vida proclamam as pessoas à rebelião: dizem que as pessoas precisam pegar em armas e usurpar o poder do tirano explorador, propondo uma revolta em massa contra as autoridades instituídas. Outros levantam a sua voz para falar mal do governo ou para criticar os governantes, e levantam difamações ou criam barcos para desestabilizar a sua administração.

Apesar de serem notórios entre os cidadãos do Império os excessos, as festas, as orgias e os absurdos praticados pelos imperadores de Roma, Pedro não conclamou os cristãos a se rebelarem contra as instituições ou se colocarem acima das mesmas para promoverem o julgamento. No entanto, ele também não disse que os cristãos devem se colocar passivamente sob as instituições humanas, com uma posição de ignorância. A Bíblia não admite uma postura de submissão sem reflexão. Há muitas pessoas que se submetem a alguma instituição simplesmente porque são mais convenientes. Eles não querem pesquisar e nem estudar os princípios que regem aquela instituição, e tendem a confundir passividade com submissão – por isso vivem completamente ignorantes sobre as instituições e fazem o que fazem simplesmente porque sempre se fizeram daquele jeito – são como bois que, sem saber , segue a boiada em direção ao matadouro.

Paulo não agia assim; ele era submetido às autoridades, mas não era passivo. Quando lemos sobre sua prisão em Jerusalém, registrada nos Atos 22, vemos que Paulo não era ignorante quanto às instituições humanas – ele conhecia as leis do Império em que ele vivia. Por isso, quando estava sendo amarrado para ser açoitado, Paulo disse: “Ser-vos-á, porventura, lícito açoitar um cidadão romano, sem estar condenado?” (Às 22h25). Paulo fez lembrar aos seus exatores a Lex Porcia, que proibia que um cidadão romano fosse tratado com violência.

Pedro está chamando os cristãos para se colocarem abaixo das autoridades humanas. Com toda humildade, os cristãos devem considerar sua posição de autoridade e ser submissos a elas. Eles não devem tê-los como inimigos; antes, devem reconhecê-las como instrumentos de Deus. Ao afirmar isso, Pedro não está dizendo que os cristãos só devem se submeter às instituições que são justas aos seus olhos; pelo contrário, também sinceras autoridades civis que são injustas, arbitrárias e até mesmo não cristãs. O próprio Pedro, quando escreveu essa carta, estava vivendo sob o governo do imperador Nero, um homem pagoso e insano. Apesar disso, Pedro se submeteu a ele e conclama as pessoas a fazerem o mesmo até as últimas consequências, que no caso de Pedro foi a morte por crucificação depois de ter-se negado a oferecer sacrifícios a outros deuses.

Às vezes existe mais compreensão quanto à sujeição às autoridades civis. Essa sujeição deve ser total enquanto as autoridades não exijam que uma pessoa cometa pecados contra Deus. Nos Atos 5, por exemplo, vemos que os apóstolos se sujeitaram ao Sinédrio e por isso não se rebelaram quando foram açoitados, mas não se submeteram à ordem de pregar o nome de Cristo. Eles consideraram que obedecer às autoridades, mas também que a obediência a Deus é sempre prioritária (Atos 5.29). Portanto, não importa quem é a autoridade civil sobre um determinado país; o que importa é que os cristãos devem estar em submissão a essa autoridade, dentro do limite da obediência a Deus.

Em segundo lugar, percebemos que Pedro orienta os cristãos a não serem meros observadores dos acontecimentos políticos. Eles devem, sim, se submeter às instituições humanas, mas, conscientes, ativas e voluntárias. Nas eleições no Brasil, por exemplo, o voto é obrigatório para todos os brasileiros que tenham mais de 18 anos e menos de 70 anos. A obrigatoriedade do voto é uma instituição humana, estabelecida para garantir a todas as pessoas o exercício dos direitos políticos. Mas essa mesma lei também estabelece que o voto é livre, direto e secreto – ou seja, cada cidadão tem o direito de, por si mesmo, votar consciente e voluntariamente no candidato que desejar. Não devemos votar nos candidatos apresentados por quem quer que seja, mas sim naqueles que melhor se moldam ao nosso modo de pensar.

 É importante entendermos o significado de “instituição humana”. Esse termo não se refere apenas à figura da autoridade humana, como um juiz ou governador, mas a tudo aquilo que o homem cria com o objetivo de estabelecer uma ordem dentro da sociedade. Aqui se incluem as leis, que são na verdade a autoridade natural mais elevada dentro de um estado democrático – no Brasil, a Constituição da República. São as leis que conferem autoridade às cargas públicas; por isso, devemos entender que Deus nos chama para nos submetermos às leis brasileiras. Pedro afirma: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor”.

O cristão deve entender que a sua conformidade com as instituições humanas deve ser consequência do seu conhecimento do Senhor. O cristão que conhece o Senhor sabe que Deus é quem dirige toda a história; o mundo dos homens não é dirigido pelo acaso, por demônios ou pelo próprio homem. Ele sabe que o seu Senhor é Todo-Poderoso e por isso é Ele quem, de alguma maneira e segundo os seus propósitos eternos e providenciais, faz serem elaborados como leis. Quanto às leis injustas e anticristãos, mesmo sendo uma reivindicação totalmente legítima e relevante, o cristão não deve reclamar, murmurar ou criticar as autoridades. Antes, deve colocar os seus olhos em Deus e descansar nEle, tendo a certeza de que Deus não perdeu o controle da situação e que Ele certamente tem um propósito naquilo tudo. O Senhor é bondoso e não deseja o mal ao ser humano; assim, todas as suas atitudes são boas. Mesmo que as instituições aparentemente mais aos olhos do homem certamente irão, em algum tempo, manifestar a espera de Deus.

Essa realidade não é facilmente compreendida pelas pessoas, mas temos como exemplo a história de José, filho de Jacó, que foi vendido como escravo ao Egito pelos próprios irmãos. Deus estava conduzindo a história, e José descobriu isso quando afirmou: “Deus me invejo futuro de vós, para conservar a sua sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus” (Gn 45.7,8). Ainda que os padrões de retenção de Deus não sejam semelhantes ao do ser humano, o cristão que conhece o Senhor pode descansar, confirmando que no final de tudo a retenção do Senhor vai se manifestar com clareza. Por isso, o cristão pode se sustentar a toda instituição humana, porque ele sabe que acima dela está o Senhor e Ele é bom.

Pr. Aroaldo de Oliveira